como é possível, digo para comigo, que, de todas as coisas que vivemos juntos que seja este episódio (deixar-me partir) o primeiro que surge nas minhas recordações? hoje, dentro de mim ressou o provérbio " a lingua bate onde o dente dói." o que é que isso tem a ver, perguntarás tu. tem a ver, tem muito a ver. esse episódio vem-se muitas vezes à idéia porque é o único em que eu nunca tive a possibilidade de fazer uma mudança. dentro do meu coração podias fazer como aqueles pregos que alargam mal entram na parede: vão-se dilatando a pouco e pouco, conquistando um pouco mais de espaço. assim, ter-te-ias transformado num ponto sólido da minha vida, ainda. devias ter tido pulso para o fazer. quando disse "vou embora", tu não me ouviste, mas sentiste-o, nesse momento devias ter-me agarrado para ficar. faltava pouco, eu sentia-o. mas não o fizeste; por cobardia, preguiça e falso sentido de pudor, obedeceste a minha ordem. com essa decisão destroiste três vidas, a minha, a tua e a do nosso amor.
mas sabes, na realidade, as coisas nunca são assim tão simples, nunca são pretas ou brancas, cada cor tem em si muitos matizes diferentes. as onze horas em ponto, em qualquer lugar onde me encontre e seja em que situação for, sairei e, no céu procurarei Sírio. tu farás a mesma coisa e assim os nossos pensamentos, mesmo que estejamos muito longe, mesmo que não nos tenhamos visto há muito tempo e ignoremos tudo um do outro, encontrar-se-ão lá em cima e estarão juntos, prometo.